Blog do Petta - A Juventude por um outro Brasil

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15/08/2007 07:27

TEMPORÃO: "O ABORTO É COBERTO COM UM VÉU DE HIPOCRISIA"





Em entrevista exclusiva para o Blog, o Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, fala sobre o conservadorismo em torno do aborto, se declara a favor de um plebiscito sobre o tema e quer ampliar também o debate sobre as drogas no Brasil. Além disso, declara que a UNE tem um importante papel para a ampliação dessas discussões.

Petta: Ministro, qual o significado de sua ida à posse da UNE?

Min. Temporão: Eu tenho dito que o ministério deve trabalhar no sentido de trazer a sociedade para o debate. Então, não só pela relevância da UNE como ator político, mas também por entender que grande parte da agenda política que eu trago para o ministério tem o jovem como interlocutor privilegiado. São esses dois motivos. A sociedade tem que se apropriar dessas questões. Tem que construir uma consciência sobre os temas de saúde que permitam que a sociedade vá amadurecendo uma visão e mudando padrões culturais. Mudando a percepção sobre as grandes questões, que são polêmicas: aborto, planejamento familiar, consumo de drogas. Por isso eu fiz questão de estar presente na posse da nova diretoria.

P: Essa aproximação pode resultar em que tipos de atividades e de projetos?

MT: Eu acho que a UNE é fundamental, por sua capilaridade. A representatividade dessa diretoria e das últimas diretorias da UNE, dada uma forte interface, não só com a ação de formação de pessoal, de estudantes das ciências da saúde, da área da saúde, e também a capilaridade que a UNE tem, me parece muito interessante pensar propostas de parceria que levem para o conjunto dos estudantes essas grandes questões. Vamos pensar de que maneira essas estratégias podem se dar. De um lado, o ministério tem muita informação, tem muito conhecimento, muito material, muito conhecimento acumulado. Por outro, a gente precisa exatamente dessa capilaridade. Chegar junto a todos os estudantes e passar uma reflexão. Não é nem passar e nem há nenhuma atitude prescritiva nisso. Pelo contrário, acho que é fazer com que os estudantes se apossem de informação e possam tomar suas decisões. Isso é o mais importante.

P: E a idéia da entidade fazer um plebiscito nas universidades sobre a questão do aborto?

MT: Fundamental. Esse é um tema que eu tenho sempre falado, me referindo como um tema coberto com um véu de hipocrisia. É uma questão de saúde pública grave, que interessa a todas as mulheres e aos homens, mas que, por "n" questões - pelo grande conservadorismo, principalmente de algumas igrejas - vem sendo colocada no campo da criminalização. Como se fosse razoável penalizar ou punir mulheres que, numa situação muitas vezes dramática e de profunda solidão, sejam colocadas em situação de sofrimento, além do que já sofreram quando tiveram que decidir dar continuidade a uma gravidez ou não. Essa é uma questão muito importante do ponto de vista político, muito importante do ponto de vista político de saúde pública e acho que a UNE, assumindo como uma bandeira de discussão e debate entre os estudantes, trará uma grande contribuição a esse debate nacional.

P: Existe a possibilidade de um plebiscito nacional sobre o tema?

MT: Eu tinha me colocado pessoalmente favorável. É evidente que não há um consenso dentro do governo. O governo, como governo, não discute essa questão. Do ponto de vista prático, está no congresso nacional, existem vários projetos de lei tramitando. Pelo entendimento do governo, cabe agora ao congresso nacional tomar a decisão se essa questão vai ser analisada do ponto de vista de uma lei ordinária ou se o congresso vai convocar uma consulta pública e popular para que esta decisão seja tomada. Eu, pessoalmente, vejo no plebiscito um espaço de debate, de crescimento político em relação a esta questão, que parece salutar. Grupos, por exemplo, ligados ao movimento feminista já têm uma visão diferente e acham que o espaço mais adequado seria o congresso. Acho que agora cabe ao congresso nacional decidir isso.

P: Vários movimentos juvenis, e a própria UNE, defendem a idéia da descriminalização das drogas. Qual a postura e a posição do ministério em relação a isso?

MT: Olha, a posição do governo sempre foi a redução de danos. A gente não tem nenhuma posição, tipo proibição. Este fim de semana, por exemplo, saiu no “Globo”, uma matéria muito interessante sobre a questão da maconha, com três visões diferentes. Duas delas favoráveis à descriminalização. Uma um pouco em dúvida, e uma delas, inclusive, trazendo muita experiência dos Estados Unidos, do uso da canabis como terapia para determinados casos como glaucoma, dores crônicas e outras questões. Ainda tem também muita hipocrisia em relação a essa questão. Têm hoje drogas legais, como o álcool e o cigarro. São drogas legais que têm um impacto, do ponto de vista da saúde pública, brutal. São milhares de mortes, doenças, sofrimento. E, por outro lado, indústrias muito poderosas que arrecadam bilhões em impostos para a sociedade. Quer dizer, tem uma certa contradição aí. E, de outro lado, uma tentativa de não se colocar em discussão a questão das demais drogas. Eu acho que o saudável para a sociedade é abrir o debate, abrir a discussão. Vamos ouvir a sociedade, vamos ouvir os jovens, vamos ouvir os estudantes, vamos ouvir os trabalhadores, o que a sociedade pensa sobre esta questão para que a gente possa avançar. Então, o que eu defendo é ampliar o debate, ampliar a discussão.

P: Então, por último, qual o recado que você deixa para a juventude?

MT: Meu recado é o seguinte: o Brasil é um país que tem uma população majoritariamente jovem, então a força desta juventude no cenário político é inconteste. O meu recado é: fique informado, participe, escute, fale, leia, reflita, e atue como um ator político fundamental, seja no mundo da educação, seja no mundo da saúde, como um ator político relevante. Esta é a coisa mais importante, porque é com esta garotada, esta juventude, que nós vamos construir o Brasil do futuro. E a gente espera que seja um Brasil com mais justiça social, com mais democracia e melhor para todos os brasileiros.


enviada por Gustavo Petta






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