O horror, o horror
Releia a reportagem de Milton Abrucio Jr. e Mônica Bergamo para a Revista Veja em 14/10/92.
Seguem alguns trechos:
Em meia hora, a Polícia Militar mata 111 presos da Casa de Detenção de São Paulo, no maior massacre penitenciário dos últimos vinte anos.
Eram 4 horas da tarde. Começam os trinta minutos decisivos, a meia hora de horror. Há pouca luz e muita fumaça no corredor de pouco mais de 2 metros de largura. A PM tem lanternas. Os presos correm entre as celas. Xingam os policiais. "Aqui é o choque", anunciam os soldados no 2º pavimento. 'Chegou a morte", gritam, raivosos e ameaçadores. São alvejados por sacos de urina e fezes. Os presos brandem estiletes sujos de sangue. "Vocês vão morrer de Aids", desafiam os detentos. Uma saraivada de tiros ecoa pelo prédio. "O japonês entrou atirando para o alto e depois saiu metralhan-do dentro das celas", conta José Nonato da Silva, 29 anos, condenado a seis por assalto a mão armada. "Vi ele matar o 'Japão', o 'Kico', o 'Nenê', o Cláudio, o Paulo e o 'Bahia' ", completa Jair Osério, 28 anos, quinze de pena por latrocínio. O "japonês" é o coronel Nakaharada. Ele tem nas mãos uma metralhadora Beretta 9 milímetros, uma maravilha bélica capaz de cuspir dez balas por segundo.
É noite de sexta-feira. Boa parte dos PMs já voltou para o aconchego do lar. São casas modestas na periferia, já que ganham pouco mais de 1 milhão de cruzeiros por mês. Encaram os filhos, as esposas, os vizinhos. Acabaram uma longa e fatigante jornada de trabalho. Mataram 111 pessoas. Agora podem dormir. E sonhar.
enviada por Gustavo Petta
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